Agressividade transforma-se em violência
Everton Félix
A história está cheia de guerras, opressões, crimes, violência e misérias. Enquanto a OTAN fomentava a terceira guerra mundial, bombardeando a Iugoslávia no ano passado (99), a violência urbana comia solta em todas as partes do mundo. E agora mesmo, enquanto você lê este artigo, alguém está sendo vitimado.
Ataques agressivos, como perder a paciência no trabalho, insultar na família ou discutir no trânsito, são cada vez mais frequentes. O ser humano primitivo necessitava da agressividade para caçar, defender-se, sobreviver. Essa agressividade ainda existe, mas de maneira mais sutil, devido às facilidades que o progresso e a civilidade acabaram por oferecer. Quando ela é externada com veemência, é porque a pessoa está prestes a ultrapassar o limite entre aquele instinto humano primitivo e o senso de civilidade. Todos nascemos com dois instintos básicos: o de agressividade e o de vida. Um bebê não mama só porque lhe deram o seio. Algo de instintivo, de luta pela vida, está neste ato. O desenvolvimento da personalidade e os modelos de conduta e de convívio em sociedade é que acabam domando a tendência ao ataque e lapidando o comportamento.
Mas, ainda assim, cada pessoa expressa ou canaliza sua agressividade de maneira própria. Alguns conseguem direcionar seu instinto agressor para uma meta e resolvem seus conflitos com diálogo. E há aqueles que vão sorvendo-a como um veneno, que pode se transformar em depressão ou outras formas de somatização. O que vem se tomando cada vez mais comum e levado a atitudes estarrecedoras, no entanto, é o direcionamento da agressividade de uma pessoa para outra. Por não encontrar o próprio caminho, o indivíduo se choca com outro e enxerga nele um obstáculo à sua felicidade. O resultado pode ser a violência.
Panela de pressão
Conforme estudos psiquiátricos, em situações extremas como o desemprego, luto ou dificuldades financeiras, as pessoas reagem de acordo com os modelos que constituíram sua personalidade. Deparando-se com questões aparentemente sem solução, aqueles que não tiveram uma educação familiar capaz de estruturar uma base de tolerância e controle acabam não conseguindo agir com racionalidade. Neste caso, o ser humano pode ser comparado a uma panela de pressão emocional. Se não aliviamos a válvula, explodimos. Mas o tamanho do estouro dependerá tanto dos ingredientes quanto da nossa receita individual para enfrentar os momentos de limite. Algumas pessoas sabem o quanto são agressivas e evitam enfrentar alguém, justamente por temer as consequências. O que não se pode é perder a capacidade de verbalização dos sentimentos. Conflitos não resolvidos e não externados tornam-se chaves para liberar nosso pior lado.
A explosão da ira não tem cor, sexo, idade ou classe social. Mas a constatação de que determinadas estruturas familiares e sócio-culturais são mais propensas a fabricar agressores em potencial favorece a prevenção da violência. Esse pressuposto tem guiado iniciativas de intervenção na trajetória pessoal, familiar e escolar de crianças em situação de risco. Vítimas de abuso sexual e maus tratos — geralmente moradores de bairros de periferia — vêm sendo o alvo dessas ações preventivas.
¨Ninguém comete uma atrocidade de graça. Basta uma avaliação no histórico e um exame psicológico para descobrir as razões de um ato extremo¨, assegura o doutor em genética Renato Zamora Flores, coordenador do programa de extensão ¨Violência: Atendimento Ambulatorial e Assessoria em Problemas de Saúde¨, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Conforme Flores, se a estrutura familiar não é a única causa da criminalidade, pelo menos é a principal. ¨Uma criança que se identifica com o poderio de um pai ou superior que mostra seu poder pelas armas ou punhos terá extrema dificuldade em aceitar qualquer tipo de convenção social mais simbólica. Vale a lei da matilha, reina o que for mais forte¨, explica.
Importância da família
Também para o mestre em psicologia Renato Caminha, que há oito anos integra a Pesquisa de Intervenção em Violência, da Unisinos, em São Leopoldo/RS, e criador de um ambulatório-modelo para casos de maus tratos, que funciona em Caxias do Sul (RS), o principal perigo para uma criança mora mesmo em casa. ¨Vítimas de agressões na infância sofrem a chamada Desordem de Estresse Pós-Traumático (DEPT), uma resposta psicológica a situações extremas que coloquem em risco a vida ou que produzam impacto psicológico negativo de grande intensidade.¨
Num grupo de 46 crianças maltratadas nos seis primeiros meses de vida e estudadas vários anos depois, ficou comprovado que a experiência de abuso físico no início da infância é um marcador de risco para o desenvolvimento de padrões crônicos de comportamento agressivo. Outro estudo, na periferia de Porto Alegre, detectou que, de 20 meninos e meninas que haviam sofrido negligência ou violência doméstica, 16 (ou 80%) apresentavam sintomas agressivos.
Apesar do conceito quase unânime de que a transformação do instinto agressor em violência é resultado de um complexo e dinâmico fenômeno social, fatores biológicos também podem contribuir. Embora não se possa afirmar que o indivíduo fique preso a um destino traçado por seus genes, a avaliação genética permite identificar certas características nos indivíduos e, a partir daí, oferecer meios para que possam lidar com dificuldades estruturais de suas personalidades. Caminha observa que o meio social pode causar mudanças na química cerebral.
Estudos em primatas e seres humanos sugerem que os indivíduos em posições inferiores na hierarquia ou submetidos a estressores apresentam diminuição na serotonina, substância que carrega os impulsos elétricos de uma célula para outra no cérebro e que está relacionada à regulação da autoestima. A redução da serotonina pode ocasionar crises depressivas, suicídio, impulsividade e atitudes violentas. Aqui vale lembrar que existem casos em que pessoas criadas com conforto, mas sem atenção dos pais, se tornam violentas. É o caso dos adolescentes que queimaram vivo um índio em Brasília (12/97), ou ainda, os dois garotos americanos que assassinaram 15 colegas em sua escola no Colorado (04/99).
Para o professor e pesquisador do Centro de Documentação e Pesquisa (Cedope) da Unisinos, José Renato Soethe, existem três fatores principais que contribuem para o aumento da criminalidade. Ele cita os meios de comunicação, especialmente a televisão, como um dos fatores determinantes por causa da produção e reprodução insistente de programas de violência. ¨O povo acaba adotando a violência culturalmente¨, resume. Outro ponto está no empobrecimento da população. ¨Violentado pelo sistema, o sujeito responde da mesma forma¨, descreve. E a desestruturação familiar vem como terceiro ponto.
O autor é jornalista e membro da IECLB em Novo Hamburgo, RS
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