|

Proclamar Libertação – Volume 19
Prédica: Daniel 12.1-3
Leituras: Hebreus 10.11-18 e Marcos 13.1-13
Autor: José Roberto Cristofani
Data Litúrgica: Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 13/11/1994

 

O nascimento nos liga às gerações futuras, a morte, às passadas, e a ressurreição a ambas

 

1. Situação lá e cá

O tempo e o espaço que, aparentemente, nos separam das situações passadas nada mais são do que elos que nos ligam, de alguma forma, às experiências humanas vivenciadas num tempo e espaço anteriores. E, por serem humanas, estão intrinsicamente relacionadas conosco.

A relação que guardamos com o passado, seja o nosso mesmo ou de outrem, supera a demarcação espaço-temporal e se manifesta através de nossos sentimentos, emoções, concepções, crenças e, em muitos casos, tanto nas condições sociais e económicas quanto nas políticas e ideológicas. Diferentes de outrora, preservam, entretanto, seu núcleo essencial, qual seja, a humanidade do homem.

Assim, nossa experiência, ainda que diversa daquela do passado, guarda intensas relações, internas e externas, de continuidade com ele, posto que somos seres humanos.

Exemplo disso é a situação de morte com a qual todas as gerações têm se deparado através dos séculos e em todos os lugares.

O cantor e compositor Belchior canta que a morte nos faz irmãos. Isto é, coloca todos nós nessa mesma e singular experiência. Mas não apenas a morte nos torna irmãos. Torna-nos irmãos a busca por uma resposta que dê sentido a essa experiência. Contudo, a resposta, quando encontrada, desfaz os laços de irmandade, separa uns dos outros e os torna diferentes.

Estamos falando da situação-limite, da morte mesmo. Porém, a situação da morte revela uma multiplicidade de elementos que a compõem e que devem ser tratados em conjunto, mas não todos de uma vez. Assim, o elemento que queremos destacar na situação de morte é aquele que aflora do texto de Dn 12.1-3, isto é, a perseguição que causa sofrimento e leva à morte.

 

2. Nas imediações do texto

O contexto de Dn 12.1-3 pode ser facilmente constatado pela forma, vocabulário e aspectos históricos.

Do ponto de vista da forma, o texto é o clímax da visão iniciada no capítulo 10, no qual a mesma tem sua introdução, p. ex., 10.14, cf. 12.1.

O vocabulário estabelece Dn 12.1-3 como continuação lógica do cap. 11, como mostra o quadro abaixo:

capítulo 12                                                                        capítulo 11

v. 1 Nesse tempo                                                               v. 35 Tempo do fim
v. 1 teu povo                                                                       v. 33 povo
v. 1 tempo de angústia                                                       v. 33 perseguição
v. 2 muitos dos que dormem                                             v. 32 violadores/povo conhece Deus
v. 3 forem sábios                                                               v. 33 os entendidos (cf. v. 35)
v. 3 os que muitos conduzirem                                          v. 33 os entendidos ensinarão muitos

Além do mais, o início de 12.1, nesse tempo, pressupõe que haja referência a ele (tempo) anteriormente (p. ex. em 10.14; 11.40), o que o torna dependente do cap. 11.

Ademais, o sofrimento e morte descritos no v. l indicam a tribulação do período de lutas entre os reis do Sul contra os reis do Norte, que perpassa todo o cap. 11.

Não há sérias dificuldades que nos impeçam de datar esses episódios contidos na visão no período da perseguição selêucida aos judeus sob o comando de Antíoco IV Epífanes.

Uma olhada mais atenta no cap. 11.21-45 mostra-se reveladora quanto ao porquê e ao como da violência praticada contra o povo de Deus. Sobretudo os w. 29-35 escancaram as atrocidades cometidas contra aquelas pessoas: p. ex., a violação das prescrições religiosas das vítimas, consequentemente de suas consciências, não apenas suprindo o culto, mas instalando um altar no santuário (11.31); assassinato, pela espada e fogo (v. 33), daqueles que resistem em adotar as novas determinações. Eles são submetidos à pilhagem e ao saque (v. 33) e à escravidão (v. 33).

Nessa situação caótica e violenta nasce o texto de Daniel 10-12 (não só ele, cf. caps. 7-12). E, para dentro dessa realidade de perseguição e morte, o texto quer ser lido.

 

3. Destaque do texto

Alguns detalhes da perícope merecem uma alusão:

— teu povo (v. 1) refere-se ao povo que conhece seu Deus (11.32). É a parcela do povo judeu que permaneceu fiel às suas convicções (lei, culto, pureza alimentar, etc.);

— muitos (v. 2) abrange, com toda certeza, mais do que apenas os fiéis, pois a ressurreição é para a vida eterna e para a vergonha e horror eternos. Pela primeira vez aparece na Bíblia formulada a doutrina da ressurreição de justos e injustos;

— sábios (v. 3) são os maskilim (entendidos) dos w. 33 e 35, cujo papel em conduzir o povo é evidente.

 

4. Ressurreição como resposta à retribuição

Diante da atroz perseguição aos justos, a consequente morte está a exigir uma resposta que satisfaça mais plenamente a indagação dos fiéis frente a tal situação.

A doutrina da retribuição, aquela que diz ter uma vida abençoada a pessoa com saúde, bens e vida, e uma vida amaldiçoada aquela que é enferma, miserável e moribunda, essa doutrina já recebera uma crítica parcial de Jó, o justo sofredor. Aqui, a doutrina da ressurreição manda pelos ares a concepção de retribuição em vida e ultrapassa a ideia de que apenas os justos irão ressurgir. Não! Também os ímpios ressuscitarão e receberão sua porção.

Se, por um lado, o texto articula-se como resposta à angústia e morte, por outro lado, o mesmo texto cumpre uma função em outro nível: a função de dar esperança aos que estão resistindo e, por isso, são perseguidos.

Portanto, Dn 12.1-3 cumpre pelo menos dois papéis: em primeiro lugar, procura articular uma resposta à morte causada pela fidelidade a Deus; e, em segundo lugar, busca dar ânimo ao povo que luta e resiste.

 

5. Rumo à prédica

O predicante poderia explorar, como peroração, a atual situação de morte na qual estamos mergulhados, buscando exemplos do cotidiano de sua realidade local.

A prédica poderia ter o corpo estruturado em dois tópicos: o contexto literário e histórico do texto e os destaques do mesmo. Tais tópicos poderiam, por seu turno, ser divididos em dois subtópicos cada. O primeiro destacaria a ferocidade e os motivos da perseguição. O segundo enfocaria a ideia corrente, na época, sobre a retribuição e a função da ressurreição.

A aplicação poderia ser feita integrando a situação do texto à nossa, sendo, contudo, específico às necessidades locais.

 

6. Subsídios litúrgicos

Duas outras leituras estão previstas para este dia: Hebreus 10.11-18 e Marcos 13.1-13. O primeiro texto poderia ser utilizado no momento da confissão de pecados, destacando-se que não pode haver retribuição para os que foram perdoados. O segundo texto versa sobre dores e perseguição (v. 9), que poderia ser usado como leitura responsiva com a comunidade.

Um efeito visual poderia ser conseguido com velas (5 ou 6) sobre o altar (mesa). Ao começar a prédica, as velas estariam acesas e seriam apagadas gradativamente enquanto se estivesse falando sobre perseguição e morte. Seria reacendida uma após outra à medida que se falasse da ressurreição.

Também as cores de luto e esperança poderiam ser utilizadas nas vestes, ornamentação, etc.
Os cânticos poderiam começar com os mais meditativos até os mais triunfantes, dando um efeito de gradação emotiva.

 

7. Bibliografia

MARCONCINI, B. Daniel. São Paulo, Paulinas, 1984;
PAUL, A. O que é intertestamento. São Paulo, Paulinas, 1981;
SAULNIER, C. A revolta dos Macabeus. São Paulo, Paulinas, 1987;
WIT, Hans de. Libro de Daniel, Santiago, Rehue, 1990.

 

Ir para índice do PL 19

 

Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).