Proclamar Libertação – Volume 19
Prédica: Lucas 1.26-38
Leituras: 2 Samuel 7.4-6, 12, 14a, 16 e Romanos 16.25-27
Autor: Augusto Ernesto Kunert
Data Litúrgica: 4º Domingo de Advento
Data da Pregação: 19/12/1993
1. Introdução
A perícope é contestada quanto ao todo de seus versículos. A crítica envolve o v. 27, que fala na virgem visitada pelo anjo e noiva de José, e os vv. 34-37. Opina-se que esses versículos são emendas posteriores feitas pelas mãos de terceiros. Rudolf Bultmann, considerando os vv. 34-37 secundários, afirma que o v. 27, com o conceito natus ex virgine, é um verdadeiro absurdo.
Martin Dibelius discorda da citação de José no v. 27 e da indicação do tempo de seis meses no v. 26. No mais, considera que a perícope trata de uma lenda e acha temeroso riscar o milagre de uma lenda. Observadas as suas restrições aos vv. 26 e 27, aceita a perícope como um conjunto harmonioso.
Já F. Hahn acha importante a inclusão do nome de José no v. 27 para atender a profecia messiânica, garantindo assim a filiação de Jesus como descendente de Davi. A pergunta de Maria: Como acontecerá isso? F. Hahn considera importante, já que o verbo ginoskein, na tradição grega, subentende relações sexuais. O v. 32 F. Hahn qualifica como dito da tradição messiânica e introduzido posteriormente na perícope. Com a sua inclusão a profecia é incorporada ao texto, que é definitivamente espiritualizado.
Chr. Burger afirma que o v. 32 nunca tratou de um reinado terrestre sobre Israel. Antes, diz ele, reflete o entendimento de Lucas sobre a entronização do filho de Maria como filho de Davi e que se relaciona com o conceito natus ex virgine da mesma maneira com que Lucas coloca em 3.23 a não paternidade humana e a descendência de Davi lado a lado.
Prefiro posicionar-me com Günter Klein quando esse escreve: Permanecem muitas dúvidas e, por isso mesmo, não é recomendável isolar os vv. 32ss. Seria pelo menos estranho querer sublinhar a eternidade do domínio messiânico a partir de uma messianologia originalmente orientada por uma compreensão terrena. Entendendo que os predicados aludidos ao Jesus terrestre receberam transformação espiritualizante, nos deparamos com uma cristologia compacta, e faz a retaliação do texto desnecessária (G. Predigthilfe, 22-25).
2. Exegese
Em seu conjunto, as perícopes de Lc 1.8-25 e Lc 1.26-38 apresentam semelhanças e linhas paralelas. Mencionaremos as principais durante a exegese.
V. 26: A província da Galileia e a cidade de Nazaré são palco dos acontecimentos. A área em questão situa-se no norte do país e não gozava de bom renome entre os judeus. Lá residiam muitos gentios. Havia um provérbio entre os judeus que dizia: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? (Jo 1.46).
Gabriel, um dos anjos mais graduados, visita uma jovem residente em lugar marginalizado. Galileia, a cidade de Nazaré e a visita a uma moça são fatores chocantes para a compreensão judaica.
Provavelmente Maria residia em Nazaré. Era noiva de José. E José era tido como descendente da família de Davi. Quanto à residência de José o texto silencia.
Lucas conhece o direito da família em vigor em Israel. Mt 1.18 e Lucas 1.27 entendem o noivado como oficialização do casamento. A vida conjugal iniciava com o recolhimento da noiva à residência do noivo. Entende-se, também em Mt 1.20 e 24, que o filho de Maria é filho, sem restrições, de José.
V. 28: Entre os dois textos de Lc 1.8-25 e Lc 1.26-38 há outras semelhanças. O anjo fala com Zacarias e com Maria. No primeiro, o anjo encontra-se com um homem que é sacerdote e, no segundo, com uma virgem. Um encontro ocorre no templo, e o outro, na moradia da moça. A aparição a Zacarias transcorre conforme a tradição, enquanto a aparição a Maria foge aos costumes e sofre rejeição por parte dos judeus. Com o sacerdote o anjo entra diretamente no assunto: A tua oração foi ouvida. Maria é saudada por Gabriel: Alegra-te, muito favorecida… A saudação a Maria aponta uma situação constrangedora, pois normalmente a mulher não era saudada em Israel. A saudação nos diz que Maria é destacada. A graça de Deus caiu sobre Maria. A saudação O Senhor está contigo confirma a escolha de Maria e lhe fala na proteção e no amparo de Deus.
V. 29: Maria assusta-se com a saudação, pois tal procedimento para com uma mulher era incomum em Israel. E é compreensível que ela pôs-se a pensar no que significaria essa saudação. Não entendo que a jovem ficasse desconfiada e que por isso procurasse certificar-se da situação. Creio que ela ficou assustada, pois algo inesperado a estava envolvendo.
V. 30: O anjo foi em auxílio de Maria. Ela recebe palavra confortadora: Não temas. Antes, também Zacarias recebera a saudação Não temas. Ambos são tranquilizados e confortados. Enquanto Zacarias recebe a explicação Tua oração foi ouvida, Maria tem o conforto da mensagem: Achaste graça diante de Deus.
V. 31: O versículo ressalta a razão da escolha: Darás à luz um filho. O nome do menino deve ser Jesus. O nome do menino, como aconteceu no caso de João, é decidido com antecedência. No nome de Jesus assinala-se algo do plano de Deus, pois Jesus significa, em nossa linguagem, Deus salva. O conceito Deus salva tem ligação com a tradição messiânica presente em Israel. Os textos de 2 Sm 7.12s., Is 9.6 e Dn 7.14 lembram a conotação messiânica. O teólogo Karl Heinrich Rengstorf lembra no contexto: Ela é uma profecia de Natã à dinastia de Davi. E, mais adiante, o mesmo teólogo conclui: Ela culmina com o anúncio de um segundo e definitivo Davi. Essa profecia fortaleceu em muito o autoconceito messiânico em Israel. Mesmo que o texto não o diga expressamente, a perícope sugere que aquele que nascerá de Maria será o Messias esperado. Ele o é porque com ele se cumpre a profecia (p. 23).
Jesus pode ser descendente de Davi somente como filho de José. Maria, assim quer me parecer, não pertencia à família de Davi. Antes o texto, quando fala no parentesco com Israel, a tem como membro da família de Levi (v. 36). Os textos de Lc 3.23, 4.22 e também Mt 1.24-25 reforçam o critério da adoção por José.
Vv. 32-33: Maria, assustada, não teve condições, imediatamente, de avaliar o significado do nome a ser dado ao menino. No mais, sempre houvera em Israel gente com o nome de Jesus. Ele não era novidade, antes um nome bastante difundido entre a população. Note-se, porém, que de nenhum outro Jesus é dito que será o Filho do Altíssimo. E em nenhum outro veio o Salvador e em nenhum outro cumpriu-se a profecia de que Deus haveria de visitar o seu povo. Somente em Jesus, o filho de Maria, o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós (Jo 1.14). Muitos reis ocuparam o trono de Davi nas terras de Israel. Todos foram passageiros. Eterno há somente um Jesus, o verdadeiro homem e o verdadeiro Deus.
V. 34: A aparição de Gabriel confundiu Maria. Como poderá dar à luz a um menino se na verdade desconhece qualquer relacionamento sexual? Daí sua pergunta cheia de admiração torna-se compreensível, já que o verbo ginoskein, usado na respectiva passagem, tem o sentido, na compreensão grega, de relacionamento sexual.
Exige-se muito de Maria. Ela não deve ter constrangimento em ver a sua reputação abalada perante o noivo e a sociedade. Espera-se dela que assuma um caminho doloroso e que tenha disposição e coragem para seguir no caminho traçado. Significa que Maria deve aceitar, no conceito do povo, a situação de moça desonrada.
V. 35: Jesus é santo desde o momento de sua concepção. Não se torna santo posteriormente pela graça de Deus, como acontece as pessoas tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Ele é santo e livre de pecado desde a sua concepção e nele se cumpre a profecia de que será para ungir o Santo dos santos (Dn 9.24). Jesus não é santo porque nasceu da virgem Maria, e sim porque foi gerado pelo Espírito Santo como filho do Altíssimo. Ele não seria cheio de Espírito Santo nem seria o Deus que salva se tivesse recebido o Espírito Santo depois de gerado, no ventre de Maria ou no seu batismo. Nesse caso, seria simples homem, agraciado é bem verdade, mas simples homem, e não Deus verdadeiro. Jesus seria homem pecador. Poderia ser o maior profeta de todos os tempos, nunca, porém, o Filho unigénito de Deus. Gerado pelo Espírito Santo, ele é, nascido de Maria, homem verdadeiro e Deus verdadeiro. E Rienecker conclui a esse respeito: Jesus é o único homem que, também necessitando do nascimento, nunca precisou do renascimento. O seu nascimento, porém, é o motivo e a possibilidade do nosso renascimento (p. 22).
A sombra na qual fala o texto lembra a nuvem citada no Antigo Testamento (veja Ex 40.34ss.). Já durante a peregrinação a nuvem acompanhou o povo de Israel (Nm 9.17). A nuvem era o sinal da presença de Deus entre o seu povo. E à sua pergunta Como acontecerá isso? Maria recebe a resposta: O poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra (v. 35).
Vv. 36-37: O sinal para Zacarias é a mudez. A Maria é dado o sinal com a gravidez da parenta Isabel, a qual, tida por estéril e já em idade avançada, está grávida no sexto mês. Tudo acontece contrariando a lógica humana e é visto como loucura e escândalo, mas para Deus não haverá impossíveis. As profecias de Deus cumprem-se pela vontade de Deus contra todo entendimento humano. Deus realiza o seu plano mesmo que a compreensão humana não tenha alcance para tanto. Ele criou o mundo do nada. E agora envia ao mundo caído, pelo nascimento de mulher, o Salvador. Os seus caminhos são insondáveis, e ele usa o caminho, mesmo que seja considerado escandaloso pelos homens, para salvar e redimir o que estava perdido.
V. 38: Maria aceita a mensagem do anjo. Nisso ela se diferencia de Zacarias. Ela se declara serva do Senhor e confessa: Cumpra-se em mini conforme a tua palavra. Maria colocou ;i si mesma cm segundo plano. Aceitou com humildade o que Deus lhe reservara. Na sua humildade e em sua fé cumpriu-se sua participação ativa no plano de Deus. Maria ó respeitada como pessoa. Ela é levada a sério. Não é usada como mulher objeto. Há respeito para com ela. E a favorecida aceita a vontade de Deus e põe-se à disposição para servir aos desígnios de Deus.
3. Meditação
3.1. Natus ex virgine. O nascimento de Jesus de uma virgem sofre contestações. Mesmo que a doutrina da Virgem Maria, assim como é defendida na Igreja Católica Romana, não encontre respaldo no meio evangélico, o natus ex virgine preocupa muitos. Vimos na exegese que o posicionamento vai, como é o caso de Bultmann, desde o qualificativo de absurdo até a plena aceitação da perícope. Não obstante, esse texto e mais Mt 1.18-25 contribuíram paia com o conceito em questão.
O natus ex virgine está registrado na Confissão da Igreja. Sabemos que Mt 1.18-25 tem caráter apologético, dirigindo-se contra maldizentes que espalhavam, conforme Mt 13.55, que Jesus fora concebido cm circunstâncias escandalosas. Lc 1.26-38 é o anúncio de que em Jesus Cristo, nascido de uma virgem, vai cumprir-se a promessa da profecia escatológica da vinda do Messias, o segundo Adão.
No mais, o Novo Testamento não comenta o nascimento da virgem; pelo menos não encontro registros que apoiem Mateus e Lucas. Marcos e João, por sua vez, defendem a preexistência de Jesus. Mc 3.20s. e 6.1-6 falam na família de Jesus sem referência ao mistério de seu nascimento. Jo 1.45 e 6.42 falam em Jesus como filho de José. O apóstolo Paul» usa para a mãe de Jesus, em contraste a Lucas, uma expressão típica do idioma grego, o termo gyné= mulher casada, e não o vocábulo parthénos = virgem, moça (W. Bauer, pp. 278 e 1046). O natus ex virgine limita-se a um texto apologético e a uma afirmação de Lucas.
Maria é a favorecida, a eleita e agraciada. É uma jovem humilde. O anjo visitou-a em sua moradia. O seu ambiente de vida e a visita do anjo não recebem um colorido especial na descrição do texto. A ela é anunciado o que lhe vai acontecer. O texto deixa claro que Maria é o vaso escolhido. A virgem não é a razão ou a finalidade em si da escolha.
Usar a escolha de Maria para desenvolver uma mariologia desconheceria o momento alto do texto e significaria perder-se numa simplificação perigosa do mesmo. Aceitamos Maria como a jovem escolhida, respeitando-a como a virgem favorecida. Honremo-la como a agraciada para ser a mãe de Jesus, reconhecendo-a como pessoa de fé.
Contudo, vamos dizer na prédica em alto e bom tom que Maria não é medianeira. Mediador há somente um: Jesus Cristo, o filho de Maria. Maria é uma pessoa igual às demais e pecadora igual a nós, favorecida é bem verdade, mas necessitada do perdão e da salvação de seu próprio filho. Não há como duvidar de que Maria foi, e isso a distingue, o vaso escolhido para a concretização do mistério de Deus.
Nela o humano e o divino se encontraram para que Jesus nascesse homem verdadeiro e Deus verdadeiro. A perícope é cristocêntrica. Ela anuncia a vinda do Deus salva. E propõe que levemos à comunidade o Evangelho que o Deus da graça e do amor, comiserando-se do mundo, encarnou em Jesus. Jo 1.14 diz isso com as palavras: O Verbo se fez carne e habitou entre nós. Maria é o tabernáculo sobre o qual vem a sombra do Altíssimo para gerar o vero homem e o vero Deus.
3.2. Como acontecerá isso? O credo da Igreja conserva, no seu texto, o conceptus de Spiritu Sanctus e, numa passagem mais adiante, registra o natus ex Maria virgine. Como aconteceu isso? O texto responde: Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Lucas chama a nossa atenção para o fruto dos acontecimentos que envolveram Maria. Ele aponta para o mistério que está por acontecer. E esse não pode ser explicado pela lógica humana. O escritor do Evangelho tem muita sensibilidade para com o mistério e nos convida para termos o mesmo respeito.
É mencionada uma sombra que envolverá a moça. Essa sombra nos lembra a nuvem que encobriu a tenda do tabernáculo, quando a glória de Deus encheu o tabernáculo (Ex 40.34). A nuvem, já no período da peregrinação, acompanhava o povo de Israel em seu caminho. Ela significa a presença de Deus entre o seu povo. Na nuvem, o Deus encoberto acompanhou o povo. A nuvem testemunha a presença e o resplendor de Deus e encobre o mistério de Deus na concepção de Jesus.
Sobre o momento em que isso acontecerá o texto silencia. Maria, porém, recebe uma informação sobre o que precede para certificar-se de que o poder de Deus torna o impossível possível. Ela deve visitar sua parenta Isabel, a qual, tida por estéril e já em idade avançada, está grávida no sexto mês.
O mistério envolve a entrada do Salvador no mundo. Ele crescerá no ventre de Maria e nascerá de mulher como as demais crianças, mas, em Jesus, Deus e o homem tornam-se um.
3.3. Filiação de Jesus: A tradição em Israel dizia que o filho receberia o nome da família do pai. Segundo a lei, Jesus é filho de José. O judeu recebia o nome do pai (Lc 4.22). A origem de Jesus está em Deus. Ele é recebido pelo Espírito Santo e por isso declarado Filho do Altíssimo. Para a prédica é importante que Jesus seja anunciado como homem verdadeiro e Deus verdadeiro. Nele concretiza-se a profecia do Messias. A tradição messiânica estava viva em Israel e acompanhava o povo desde longa data. O Antigo Testamento está embebido da esperança messiânica. E ela se cobre com o texto, quando verificamos que o Messias deveria nascer como rebento da família de Davi. Günter Klein diz a esse respeito: O descendente do rei Davi, no exercício do seu reinado, era entendido como representante de Deus na terra, como Senhor do Sião, e sua entronização era reconhecida como ato de Deus e aceita como nascimento verdadeiro. Assim, o motivo do anúncio a Maria, no que se refere a Davi, sempre valeu como ‘o tomar morada de Deus na terra’ e é levado, nessa perícope, à última consequência (p. 27).
Lucas diz que a profecia messiânica cumpriu-se com o nascimento de Jesus. O caminho para o seu nascimento é de difícil compreensão para o homem. Deus, porém, nos alerta que ele faz o impossível ser possível. Daí é possível que em Jesus o humano e o divino formem uma unidade. Jesus mesmo afirmou: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). Nascido de Maria e Filho do Altíssimo, Jesus é homem verdadeiro e Deus verdadeiro. No rompimento dessa unidade perdemos o Salvador, perdemos aquele que veio buscar e salvar o que estava perdido, perdemos a remissão dos pecados pela graça de quem morreu e ressuscitou em nosso favor, perdemos o renascimento em espírito e na verdade. Estamos diante do mistério de Deus. E a f é deve assumi-lo. Cabe-nos ouvir o que o anjo e Maria nos têm a dizer, sem querer corrigi-los em nossa pregação. Vamos deixar o texto falar a nós e servir de veículo para que também a comunidade ouça e sinta algo do mistério da ação de Deus em favor do mundo caído. É importante que aquilo que está excluído das possibilidades, das condições e da ação humanas, mas é realizado pelo poder de Deus, seja, como diz Günter Klein, o cantus firmus da prédica (p. 29).
3.4. O texto visa a pregação de Jesus Cristo e não dá margem a divagações e comentários antropológicos. A perícope é cristocêntrica. O nascido da virgem Maria não é o escopo do texto, e sim Deus, que encarnou em Jesus Cristo. O texto, portanto, não enaltece Maria, mas prega Jesus Cristo, o segundo Adão, no qual cumpriram-se as profecias messiânicas, que anunciavam a vinda do Salvador como descendente da casa de Davi. Ele é Filho do Altíssimo, nascido em local e circunstâncias humildes. É o Deus encarnado. É o Verbo que se fez carne e que veio habitar entre nós. Ele sofreu a cruz. Ressuscitou na Páscoa. É o homem verdadeiro e Deus verdadeiro, que assumiu o governo do inundo.
3.5. A Igreja agiu certo ao incluir em sua confissão os textos: Filho unigênito de Deus, nosso Senhor e concebido pelo Espírito Santo, nascido da virgem Maria. E ela continua certa em seu firme propósito de manter esses textos, rebatendo as tentativas dos que pretendem eliminá-los. Com a sua posição a Igreja declara e confessa que somente podemos falar em Jesus, homem verdadeiro e Deus verdadeiro, curvando-nos perante o mistério que envolve concepção e nascimento de Jesus. Isso significa que podemos testemunhar Jesus somente na fé. Sem dúvida, o nascimento nos lembra sua mãe. A prédica deve testemunhar que Maria serviu de vaso para que Jesus entrasse no mundo, mas que ela não é medianeira e sim pecadora que necessita da salvação em Jesus Cristo.
3.6. Jesus é Rei. Ele é um rei diferente dos demais. Ele é eterno. Não é passageiro como os reis mortais com passagem pelo trono de Davi. O desejo dos reis era viver para sempre. Na ânsia de ter os seus nomes lembrados entre as gerações futuras, os faraós, por exemplo, construíram pirâmides e mandaram alguns dentre eles marcar as pedras com os seus nomes. O rei que não construiu edifícios, mas que suscita pedras vivas para edificar a sua Igreja na terra e que enviou seus mensageiros ao inundo para anunciar a Boa Nova da salvação, é o Rei eterno, e o seu reinado não tem fim.
3.7. Jesus Cristo é o Santo como Filho unigênito de Deus. Ele exerce seu senhorio após sua ressurreição. Quem se aproxima de Jesus de Nazaré sem assumir sua crucificação e ressurreição não compreendeu os feitos de Deus na concepção e nascimento de Jesus em favor do mundo caído. Natal sem Sexta-Feira Santa e Páscoa esvazia-se para uma data de nascimento de qualquer personalidade da história humana.
3.8. Falar na vinha do Salvador significa expor-se à ação do Criador. Aceitar Jesus, confessá-lo como Senhor e Salvador, é testemunhar a libertação das amarras do pecado. É a libertação para servir. É o testemunho de nossa renovação em espírito e na verdade. Confessar Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador liberta-me para o encontro com os homens e para uma vida em comunhão. Valoriza o pequeno e me aproxima do rejeitado e marginalizado. Supera a arrogância e o egoísmo e me torna apto para a vida em comunhão com os que sofrem.
4. Auxílios litúrgicos
1. Confissão: Senhor Deus! Enviaste a tua eterna luz ao mundo para iluminar a nossa vida. Nós, porém, mostramos preferência, em palavras e ações, pela escuridão. Os nossos pecados são prova disso. Perdoa-nos, misericordioso Pai, os nossos erros e a nossa culpa para que também conosco aconteça a graça do anúncio: Canta e exulta, ó filha de Sião, porque eis que venho e habitarei no meio de ti. Tem piedade de nós, Senhor!
2. Oração de coleta: Louvamos o teu santo nome, Pai celeste, que nos visitas e vens habitar em nosso meio. A tua presença nos é alegria e conforto. Ajuda-nos a receber dignamente o teu Filho unigênito, vencendo o nosso medo, a insegurança e a violência nas ruas de nossas cidades. Ajuda-nos a superar a marginalização de tantas pessoas sem emprego, sem salário, sem alimentos. Ajuda-nos ainda na renovação do nosso espírito, preparando-nos para a comunhão de vida com os que sofrem. Ilumina, Filho do Altíssimo, os nossos corações e caminhos com a tua luz, para que possamos, guiados por ti, viver e dar amor aos carentes, desamparados e entristecidos. Amém.
3. Oração final: Senhor, nosso Deus! Louvado sejas tu, que deixas a tua luz iluminar a escuridão que cobre o mundo caído. Louvado sejas por deixares o Verbo tornar-se carne e habitar entre nós. Louvado sejas por convocares mensageiros do Evangelho para que o mundo saiba que o amas, que queres sua renovação e que haja paz entre os homens.
Ajuda-nos, Senhor, a buscarmos a tua face e que a tua obra de renovação aconteça conosco pela graça do Juiz e Salvador. Livra nosso coração do egoísmo, nossos lares de brigas e confusões, nossa Igreja de erros e perturbações e nosso povo de corrupção e descrença. Leva-nos à casa paterna. Dá o Salvador a nós que perdemos o rumo e o caminho. Deixa que nossos olhos vejam a tua salvação e a nossa alma encontre a paz no amor de Jesus Cristo, teu Filho amado. Amém.
5. Bibliografia
Das Neue Testament Deutsch. Das Evangelium nach Lukas. Traduzido e comentado por Karl Heinrich Rengstorf. 4a edição revisada, 1949, Vandenhoeck und Ruprecht, Goettingen;
Das Evangelium nach Lukas. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. Traduzido e comentado por Walter Grundmann. Vol. 3,8. ed. 1978, Evangelische Verlagsanstalt, Berlin;
Das Evangelium nach Lukas. Wuppertaler Studienbibel. Comentado por Fritz Rienecker. R. Brockhaus Verlag, Wuppertal, 1969;
VOIGT, Gottfried. Die geliebte Welt. Homiletische Auslegung der Predigttexte der Reihe III. Evangelische Verlagsanstalt Berlin, 1980;
Proclamar Libertação vol. VI. Auxílios homiléticos. Série de Perícopes III. Editora Sinodal, São Leopoldo, 1980;
Göttinger-Predigtmeditationen. Série 5, Ano 65, Caderno l, Novembro 1976, Vandenhoeck und Ruprecht, Göttingen;
BAUER, D. Walter. Griechisch-Deutsches Wörterbuch. 3. ed., 1937, Verlag Alfred Trepelmann, Berlin.
Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).