Tecendo fios, atando nós …
Em uma manhã fria e chuvosa, vão chegando 25 teólogas latino-americanos e as coordenadoras regionais, convocadas pela coordenação de mulheres das igrejas luteranas do continente e pela Secretaria das Mulheres na Igreja e Sociedade da FLM – MEIS. Estiveram reunidas de 24 a 27 de junho na Faculdades EST, na cidade de São Leopoldo, região sul do Brasil.
O tema sob o qual se reuniram foi “A caminhada das mulheres na construção das igrejas latino-americanas”. Com vistas à comemoração dos 500 anos da Reforma Luterana, as mulheres refletiram sobre a importância de se contar o trabalho das mulheres ao longo da história das igrejas latino-americanas. Como a mulher em Lucas 15 que acende uma luz e varre a casa, procurando a moeda perdida, se acendem luzes no trabalho em conjunto que ilumina o caminho para descobrir a tantas mulheres protagonistas nas igrejas da América Latina.
A biblista brasileira Ivoni Richter Reimer acendeu mais luzes, dando perspectivas hermenêuticas para visualizar as tantas mulheres esquecidas da Bíblia e perceber o seu trabalho e importância. Foi um dia de estudos bíblicos que surpreenderam a todas, pelas descobertas e recuperação de testemunhos de mulheres que raramente são percebidas nos relatos bíblicos.
As mulheres na América Latina se organizaram em uma rede, uma rede que segura e filtra. Assim como toda rede, que tem nós, também da Rede de Mulheres Luteranas da América Latina e Caribe tem nós. Nós que organizam e reúnem as coordenadores regionais de MEIS, teólogas, jovens e mulheres que atuam nas pastorais.
Entre os assuntos trabalhados na reunião, dois eram fundamentalmente importantes para a articulação das mulheres nas igrejas-membro da FLM: o recém aprovado documento de política de justiça de gênero da FLM e a participação das mulheres na história da Reforma. O grupo teceu em conjunto, fios que servirão de guia para a contextualização e implementação da política de justiça de gênero no contexto latino-americano. Aprovou-se, também, um conjunto de iniciativas conjuntas, que resgatarão as histórias do protagonismo de mulheres no contexto da celebração dos 500 anos de Reforma.
Cantos, tecidos, música, palestras, testemunhos, estudos hermenêuticos, histórias pessoais … tudo parte do mesmo encontro, como a vida, com seus vários fios que formam o tecido da vida cotidiana.
Como pão quente …
Elizabeth Arciniegas coordenadora para a região andina de MEIS e delegada ao Conselho da FLM participou da assembleia que aprovou a “Política justiça de gênero da FLM. Ela diz:
“Para mim, esta política de justiça de gênero é fundamental. Fazia falta uma ferramenta de trabalho que nos fornecesse princípios que nos dão fundamentos bíblicos, teológicos e práticos do porquê e como se trabalhar o tema gênero. Saber que toda a comunhão das igrejas-membro da FLM aprovaram este documento, revela-nos quão importante é este tema. E nos dá base para inserir este tema em nossas próprias igrejas”
– Como trabalhar com este documento, para que as igrejas se apropriem dele?
O mais importante é colocar o documento em uma linguagem que todas as pessoas possam entender. E isso deve ser feito rapidamente. É como pão caseiro… Sentimos o cheiro maravilhoso de pão fresco na reunião do Conselho da FLM, agora, temos que distribuir o pão e fazê-lo palatável para todas as pessoas, enquanto ainda está quente , diz Elizabeth. Temos que socializá-lo com os conselhos diretivos das comunidades e também com grupos de homens e mulheres. No IELCO (Igreja Evangélica Luterana na Colômbia) tivemos uma experiência muito linda. A líderes do trabalho com mulheres, o grupo diretivo das mulheres e alguns homens que compartilham de nossos anseios, discutiram o documento “Gênero e Poder” da FLM. A palavra gênero causa confusão e, às vezes, a usamos mal. Assim, ao invés da palavra “gênero”, usamos a expressão “Relações de poder entre homens e mulheres” para convidar essas pessoas para dialogar. Foi uma discussão muito rica, onde se compartilhou experiências concretas desta desigualdade no poder. Assim, o documento se fez carne e se tornou vivo, concreto, a partir da experiência real.
Segundo Elisabeth, este encontro de teólogas e coordenadoras regionais, é um espaço para criar estratégias de como trabalhar com o documento em nossas respectivas igrejas e na região. Ela afirma: “Por sua vez, estes espaços nos ajudam a fortalecer a nossa confiança, a nos encorajar no caminho e a buscar estratégias de incidência comuns”.
Para a Pastora Rosangela Stange, “o encontro foi uma oportunidade de tornar a Rede de Mulheres e Justiça de Gênero mais conhecida e em mais espaços das igrejas. Todo o processo que fizemos de recordar os princípios da hermenêutica feminista com instrumentais de justiça de gênero foi fundamental para termos instrumentais metodológicos para desvelar e contar as histórias de mulheres em nossas igrejas. O grupo experimentou um crescimento na compreensão de ser e fazer parte de uma comunhão de igrejas….”
Iniciativas regionais que visibilizarão as histórias das mulheres no contexto da celebração da Reforma, a implementação da política de justiça de gênero e a incrementação da produção teológica de mulheres luteranas latino-americanas e as estratégias de implementação que foram acordadas no encontro, foram os três eixos centrais do trabalho durante estes dias.
Fonte: Federação Luterana Mundial