Proclamar Libertação – Volume 18
Prédica: Salmo 22.2-12, 17-20
Leituras: Hebreus 4.14-16; 5.7-9 e Mateus 27.33-54
Autor: Marlon Ronald Fluck
Data Litúrgica: Sexta-Feira da Paixão
Data da Pregação: 09/04/1993
Tema: Sexta-Feira da Paixão
1. Introdução
Quando convidado a elaborar esse auxílio, recebi a orientação de que acentuasse a abordagem sobre a História da Interpretação, visto que os enfoques exegéticos e homiléticos já estariam suficientemente disponíveis. Assim sendo, apresentamos a forma diferenciada de abordagem que segue.
2. Questões de interpretação
Há uma grande gama de propostas sobre a autoria desse Salmo. Quando aceita a autoria davídica, esse Salmo é tido como oriundo da experiência de sofrimento ligada à época da perseguição movida por Saul. Nesse caso, nele se revelaria o descontentamento de alguém que se encontra na mais perfeita inocência (Delitzsch, p. 303). Jesus Cristo, ao apropriar-se do Salmo na oração da Cruz, estaria fazendo do típico sofrimento de seu ancestral o meio para a representação de seu próprio sofrimento (Delitzsch, p. 307). Outra linha interpretativa, representada por Ewald, coloca o Salmo no tempo que precede a destruição de Jerusalém (Delitzsch, p. 303s). Outra localiza-o no período exílico (Delitzsch, p. 304).
Briggs é representante de uma datação pós-exílica (Briggs, p. 190), descrevendo situação semelhante à mencionada no livro de Lamentações, com referência a Jerusalém, ou àquela da mãe Sião e do Servo de Javé, em segundo Isaías. Sua visão é a de que a situação é a da infante comunidade da restauração, quando essa é exposta aos ataques cruéis e traiçoeiros das nações menores, como descritas em muitos Salmos do período (Sl 9-10; Ne) (Briggs, p. 191).
É nesse contexto que o sofrimento de Israel teria sido idealizado e tido como meio de relação mediadora para com as nações. A partir daí é que ele seria classificável como messiânico (Briggs, p. 192).
Hitzig propõe que Jeremias teria composto a primeira parte do Salmo quando lançado na prisão, como um apóstata, enquanto a segunda parte, no tribunal da prisão, quando identificado e posto sob sujeição mais suave (Delitzsch, p. 304). Bonnard também identifica-o com as situações passadas por Jeremias. Para ele, os aramaísmos e as alocuções usadas também exigiriam uma datação não anterior a Jeremias. O salmista só poderia ser Jeremias ou um filho espiritual de Jeremias (Bonnard, p. 67). O certo é que o Salmo, em seus inícios, fala de experiências de profunda desolação, como as tidas também por Jó, no terrível curso de sua vida (Jó 3.1-26), e por Jeremias, em seu lamento (Jr 20.14-18) (Craigie, p. 202).
Há outros intérpretes que leem o Salmo sob a perspectiva da ideologia real, vinculando-o aos rituais cúlticos reais, nos quais o rei representa a deidade morta e revivida (concepção defendida por G. Widengren e A. Bentzen, cf. Kraus, 1988, p. 293). De acordo com essa visão, o autor não é um membro ordinário da comunidade de Israel, mas o próprio rei.
A pessoa abandonada por Deus inevitavelmente é o ‘rei moribundo’ (…), e a pessoa agradecida deve ser o ‘governante revivificado’ no drama cultual. (Kraus, 1988, p. 29.1)
O cenário desse tipo de experiência seria idealmente aquele em que o rei se submetesse a uma humilhação ritual num festival anual em Israel, como na Babilônia (…); mas a própria existência de tal ritual israelita não passa de uma inferência de passagens como esta, sem o apoio de evidência direta (Kidner, p. 123).
Por outro lado, o Salmo era cantado em uma refeição associada com uma oferta, para a qual o ‘pobre’ era convidado e reunido (v. 26) (Kraus, 1988, p. 294).
Para Olshausen, a totalidade do Salmo é apropriada para a época dos macabeus (Delitzsch, p. 304).
A Igreja Antiga, com sua interpretação tipológica do Antigo Testamento, vê Cristo como aquele que fala nesse texto. Os antigos expositores luteranos também realçaram essa visão, defendendo que, literal, alegórica, tropológica e analogicamente, integral e totalmente, esse Salmo fala somente de Cristo (Delitzsch, p. 306). Mesmo a sinagoga, quando reconheceu a existência de um Messias sofredor, ouviu-o falando nesse Salmo (Delitzsch, p. 306).
Percebe-se, no Salmo, uma ênfase na pessoalidade do que sofre, sendo esse levado da lamentação à oração, e daí ao louvor e ao agradecimento. No entanto, esse indivíduo é também inserido na comunidade. A mudança de pessoa e de tom na sessão final (vv. 28-32) indica a resposta congregacional e a conclusão da liturgia (Craigie, p. 198).
O que fica evidente no Novo Testamento é a significativa identificação de Jesus com o sofredor do Salmo. É desse Salmo que provém o discernimento acerca do significado da crucificação.
No sofrimento de Jesus nós percebemos Deus, em Jesus, completamente para dentro e participante no terror da mortalidade. Ele se identifica com o sofredor e o moribundo. (…) Mas esta é também uma marcada diferença entre a experiência do salmista sofredor e a de Jesus. O salmista conclui com louvor por que o sofredor escapou da morte; Jesus morreu. Agora, a última parte do Salmo (vv. 22-32) pode também ser lida de uma perspectiva messiânica. A transição do v. 22 é, então, entendida, não como salvação da morte, como foi o caso do salmista, mas salvação ATRAVÉS DA morte, conseguida na ressurreição. E isso é essa salvação que é a base do louvor, ambos do sofredor (vv. 23-27) e da grande congregação’ (vv. 28-32) (Craigie, p. 202s.).
No entanto, o Sl 22 não pode ser visto como o quinto evangelho acerca da crucificação (Craigie, p. 202), exatamente porque apresenta outros elementos, dos quais o próprio Cristo não se apropriou. O que Cristo fez foi uma releitura messiânica do Salmo, aplicando a Si aquilo que iluminasse sua própria experiência de paixão e morte. Ele é a fonte de discernimento para sua concepção da missão a desempenhar na Cruz.
Vários estudiosos, percebendo a diferença existente entre os vv. 1-21 e 22-31, propuseram tratar-se de dois Salmos, que teriam sido fusionados pelo redator final (Craigie, p. 197).
3. Questões práticas
Os Salmos certamente são o livro bíblico que apresenta o mais amplo espectro da gama de sentimentos humanos. Esse Salmo, em particular, apresenta o mais desconsolável clamor da angústia de alguém que se percebe como prolongadamente deserdado por Deus. Há sinais de impaciência e desespero, mas também de alienação de Deus e de anseio por ou saudade de um estado anterior. O auxílio de Deus e o clamor pelo mesmo são vistos como experiências muito distantes uma da outra. À luz da leitura feita no Novo Testamento, podemos dizer que
Porque Deus, em Jesus, engajou-se nessa desolação, ele pode oferecer conforto para todos dentre nós que andam agora como o salmista andou (Craigie, p. 203).
O que se percebe em Hb 4.15 e 5.7 é que a tentação de Jesus, momento em que ele se vê como abandonado de Deus e lhe expressa o grito de Sl 22.1, é descrita como sinal de uma final e extrema participação na dor dos seus, que separa de Deus (Kraus, 1985, p. 257). Aquilo que ocorre em Cristo e o torna preparado para ter empatia com todo e qualquer sofrimento humano (cf. Hb 4.15-5.8; 2.18) é, na visão paulina, também o meio pelo qual Deus prepara os cristãos para envolverem-se com os atribulados e angustiados (cf. 2 Co 1.3-9). Poder-se-ia até falar num caráter pedagógico, depreendido do Sl 22 para todo o ministério cristão no mundo: Só quem foi socorrido consegue eficazmente socorrer e ser instrumento de Deus em meio ao sofrimento. É nesse sentido, de ser agraciado anteriormente por Deus (l Jo 4.19), que o cristão torna-se, a partir daí, um cristão para seu próximo.
A existência humana é definida por Deus, no AT, a partir da atuação de Deus em meio à angústia. Naquele que sofre, o
seu ‘coração’ se assemelha à cera, se derrete seu interior (Sl 22.15). A queda e a dissolução atacaram o centro da existência humana. Ante esta dissolução da vida que afeta ao centro, só cabe o desejo de ser daqueles que experimentaram a intervenção salvadora de Javé: ‘vosso coração deve reviver para sempre’ (Sl 22.37) (Kraus, 1985, p. 195).
Kraus reforça esse aspecto da antropologia veterotestamentária, dizendo que
o homem em Israel é o homem resgatado da situação de apuro. Não se encontra à mercê dos poderes inimigos da acusação, perseguição, enfermidade e destruição. Por essa razão pode oferecer-se a Javé o canto de ação de graças por suas grandes ações. Significativamente, esta ação de graças é feita pública ante a ‘grande assembleia’ do povo de Deus reunido para a festa (Sl 22.23, 26; 35.18; 66.16; 109.30) (Kraus, 1985, p. 191).
É a certeza da escuta da parte de Deus (Sl 22.21) que abre caminho para a mudança da situação.
Chama atenção o fato de ser esse Salmo, quando usado na Cruz por Jesus (Mt 27.46; Mc 15.34), o único texto dos Salmos que foi citado em hebraico pelo NT, e não segundo a versão grega da Septuaginta.
Falar do silêncio de Deus e de seu ocultamento (v. 1) só é possível quando se sabe que Ele já falou antes (v. 4s.) e que também falará no futuro (v. 24). É isto que mantém o que crê, inclusive frente ao inimigo chamado morte (l Co 15.26), da qual se sabe que não o poderá separar do amor de Deus (Rm 8.38s.). O terror e a angústia que permeiam a experiência de sofrimento e morte não têm a última palavra. Há conforto de Javé em meio à desolação. A libertação conquistada por Cristo, e lida a partir do Sl 22, significa para aquele que crê em Cristo a abertura paia a atuação de Deus em meio ao sofrimento. Cristo antecipa apocalipticamente o que Deus fará escatologicamente na vida dos que creem. Nesse sentido, o Sl 22 aplica se às experiências de sofrimento concretas do dia-a-dia daqueles que, em meio à dor, clamam ao Deus de Jesus Cristo. O Sl 22 mostra a solidariedade de Deus conosco. Cristologicamente lido, revela Jesus morrendo POR nós (Rm 5.8) e COM nós (Gl 2.19b, 20).
4. Subsídios litúrgicos
1. Confissão de pecados: Perdão, Senhor, pelo sofrimento que temos provocado entre as pessoas que convivem conosco: nossos familiares, nossos amigos & amigas da igreja, colegas de emprego. Perdoa nossa insensibilidade. Dá-nos uma percepção das necessidades concretas das pessoas, em especial dos órfãos, das viúvas e dos doentes de nossa comunidade, para que sejamos instrumentos do teu consolo em suas vidas.
2. Oração de coleta: Ajuda-nos, Senhor, para que aprendamos a repartir nosso tempo, nossos talentos e nosso dinheiro com aquelas pessoas que sofrem necessidades de todo tipo. Que Cristo nos faça pequenos cristãos para o mundo tão carente do amor e do consolo provenientes do Espírito Santo.
3. .Oração final: Sugiro que a própria comunidade relate pedidos de oração. Que se fale dos que sofrem e que se ore especificamente pelas necessidades compartilhadas.
5. Bibliografia
BONNARD, Piere C. Os salmos dos pobres de Deus; influência literária e espiritual de Jeremias sobre trinta e três salmos. São Paulo Paulinas, 1975. 305p. (Coleção Estudos Bíblicos, 2);
BRIGGS, Emilie Grace. A critical and exegetical commentary on the book of Psalms. Edinburgh, T. & T. Clark, 1976. v. 1. 422p. (The international critical commentary) GRAIGIE, Peter C. Psalms 1-50. In: HUBBARD, David & BARKER, Glenn W. (ed.). ‘Word biblical commentary. 2. ed. Waco, Word Books, 1984. v. 19. 375p;
DELITZSCH, Franz. Biblical commentary on Psalms. Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans, 1955. v. 1. 428p. (Biblical commentary on Old Testament);
GERSTENBERGER, Erhard. Salmos. São Leopoldo, Comissão de Publicações da Faculdade de Teologia, 1982. v. 2. 84p. (Série Exegese, v. 1, fascículo 1);
KIDNER, Derek. Salmos 1-72; introdução e comentário aos livros I e II dos Salmos. S. Paulo, Vida Nova/Mundo Cristão, 1980. 280p. (Cultura bíblica, 13);
KRAUS, Hans-Joachim. Psalms 1-59; a commentary. Minneapolis, Augsburg, 1988. 559p;
Teologia de los Salmos. Salamanca, Sígueme 1985. 295p. (Biblioteca de estúdios bíblicos, 52).
Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).